Alguma Literatura

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domingo, 25 de novembro de 2012

OTÁVIO NICANOR





Otávio Nicanor

Não tem aparecido para trabalhar.
Odete, do almoxarifado, jura tê-lo visto com os pedintes da praça XV, carregando sua maleta como sempre fazia (jogada sobre as costas, à moda de mochila). Na mão, uma garrafa vazia. Cachaça? Ana, do RH, insiste que o mendigo novo não é Otávio: “Ele tem frequentado sim a praça, mas tocando zabumba ao lado do sanfoneiro Almir, o Bocarra...” Já Tavares, da recepção, não entende o motivo de tanto alarde, pois dá como certo que ele passa pela portaria todo dia de manhã, e de tarde: “Normal. Malinha nas costas. Só estranho a catinga de cachaça...” Paulo, seu chefe imediato, confessa não tê-lo visto recentemente, embora possa demonstrar com planilhas e estatísticas um considerável aumento de sua produtividade.
Em razão das conflitantes versões, sindicância foi instaurada. A conclusão: Otávio ostenta um particular estado. Algo entre a presença e a ausência. Resolveu-se, assim, seguir pagando-lhe metade do salário. A sua esposa o recebe.
Essa, ao acordar, colhe pela casa os rastros de sua passagem: Lençóis revoltos, toalha molhada, café, talheres, perfume, pingos de urina no assento do vaso. Aos domingos, os sons do futebol tomam a casa. “Quem ligou a TV?” Casada com os vestígios de um homem, ela tem convivido com o assédio de pretendentes incrédulos: “Por que ninguém acredita quando digo que sou feliz com meu casamento?”

domingo, 23 de setembro de 2012

PARA ESCREVER NUMA CAMISETA




1
Provavelmente estou mentindo.
♥♠♣♦

2
Desculpe, não falo português.
♥♠♣♦

3
Minha outra camisa é de marca.
♥♠♣♦

4
Posso atrapalhar?
♥♠♣♦
5
Minha outra camisa está limpa.
♥♠♣♦

6
Deixei meu smoking no iate.
♥♠♣♦

7
Quer um abraço? Eu não.
♥♠♣♦

8
Não podem provar nada contra mim.
♥♠♣♦




terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eloquência






-Como você sabe quando o quadro está pronto?
-Quando ele fala por si.
-Esse não está né?
-Está... Ele é do tipo caladão mesmo.

domingo, 9 de setembro de 2012

Sugestão de leitura para a terça



Sugiro a leitura da seguinte crônica de autoria do Rogério Pereira, fundador do Jornal Rascunho.

COMO BALA





A Cidade: uma fera confessa,
que ronca e rosna toda a sua fome.
O Homem, uma outra que consome
a vida sua a serviço da Pressa

(urgência de quem tem, forte e latente,
fome de pão e também de dinheiro)
por isso, na viagem, o passageiro
revisita o destino em sua mente

e, não estando lá, deveras sente
do lugar as cores, clima e cheiro.
A janela, o pensamento atravessa.

Voando, escapa ao olhar mais atento.
Você, que me julga a cuidar do vento,
não vê que pensando vou mais depressa?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

ENCONTRO DE MANUEL BANDEIRA COM MACHADO DE ASSIS




“1896-1902
(...)
Viajando em um bonde na companhia de Machado de Assis, conversam os dois sobre Camões, e o jovem colegial tem o orgulho de recitar para o mestre uma oitava de Os Lusíadas de que este queria lembrar-se e cujas palavras exatas haviam se apagado em sua memória.”
(CRONOLOGIA DE MANUEL BANDEIRA [organizada pelo próprio autor] In Libertinagem e Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira).

Diário do jovem Manuel Bandeira:
“Que sorte a minha! Esse é o dia mais feliz da minha vida! A viagem tinha tudo para ser maçante, mas eis que encontro, viajando só, o grande Machado de Assis! Dá para acreditar? Não resisti e me aproximei. Disse o quanto o admirava. Como ele se mostrou um homem calado, aproveitei que no dia anterior havia decorado, por absoluta falta do que fazer, uma oitava de Os Lusíadas (‘Passada esta tão próspera vitória...’) para conduzir a conversa primeiro para Camões, depois Os Lusíadas e, em seguida, para o episódio de Inês de Castro. Enfatizei como admirava a elegância da primeira oitava a ela dedicada. Estrofe que, a um só tempo, introduz e sintetiza toda a tragédia. Foi o que bastou para que ele tentasse, sem sucesso, lembrar-se das sua exatas palavras. Pedi licença e, sem pestanejar, recitei a oitava na íntegra. Que orgulho! Foi um dia bom.”

Diário do velho Machado de Assis:
“Que azar o meu! A viagem tinha tudo para ser tranquila, mas eis que me aparece, do nada, um meninote tagarela, recitando Os Lusíadas de cor. Dá para acreditar? Que porre! Hoje eu pedi para morrer.”