Alguma Literatura

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sábado, 22 de dezembro de 2012

“POIS É, PENÉ.”




O porteiro me barrou. No elevador, seu Antônio, o vizinho do 602, perguntou se eu era novo. A fechadura não reconheceu minha chave. Meu garoto me negou um abraço. Penélope quis saber quem eu era. Já que fui ficando, acabaram por se acostumar. O porteiro, seu Antônio, meu filho e minha mulher. Porque a fechadura se mostrara especialmente teimosa, tivemos de trocá-la. Nesse dia, ouvi Penélope ao telefone (com Ana, sua irmã): “Mais fácil trocar o segredo do que o marido, né?”

domingo, 25 de novembro de 2012

OTÁVIO NICANOR





Otávio Nicanor

Não tem aparecido para trabalhar.
Odete, do almoxarifado, jura tê-lo visto com os pedintes da praça XV, carregando sua maleta como sempre fazia (jogada sobre as costas, à moda de mochila). Na mão, uma garrafa vazia. Cachaça? Ana, do RH, insiste que o mendigo novo não é Otávio: “Ele tem frequentado sim a praça, mas tocando zabumba ao lado do sanfoneiro Almir, o Bocarra...” Já Tavares, da recepção, não entende o motivo de tanto alarde, pois dá como certo que ele passa pela portaria todo dia de manhã, e de tarde: “Normal. Malinha nas costas. Só estranho a catinga de cachaça...” Paulo, seu chefe imediato, confessa não tê-lo visto recentemente, embora possa demonstrar com planilhas e estatísticas um considerável aumento de sua produtividade.
Em razão das conflitantes versões, sindicância foi instaurada. A conclusão: Otávio ostenta um particular estado. Algo entre a presença e a ausência. Resolveu-se, assim, seguir pagando-lhe metade do salário. A sua esposa o recebe.
Essa, ao acordar, colhe pela casa os rastros de sua passagem: Lençóis revoltos, toalha molhada, café, talheres, perfume, pingos de urina no assento do vaso. Aos domingos, os sons do futebol tomam a casa. “Quem ligou a TV?” Casada com os vestígios de um homem, ela tem convivido com o assédio de pretendentes incrédulos: “Por que ninguém acredita quando digo que sou feliz com meu casamento?”

domingo, 23 de setembro de 2012

PARA ESCREVER NUMA CAMISETA




1
Provavelmente estou mentindo.
♥♠♣♦

2
Desculpe, não falo português.
♥♠♣♦

3
Minha outra camisa é de marca.
♥♠♣♦

4
Posso atrapalhar?
♥♠♣♦
5
Minha outra camisa está limpa.
♥♠♣♦

6
Deixei meu smoking no iate.
♥♠♣♦

7
Quer um abraço? Eu não.
♥♠♣♦

8
Não podem provar nada contra mim.
♥♠♣♦




terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eloquência






-Como você sabe quando o quadro está pronto?
-Quando ele fala por si.
-Esse não está né?
-Está... Ele é do tipo caladão mesmo.

domingo, 9 de setembro de 2012

Sugestão de leitura para a terça



Sugiro a leitura da seguinte crônica de autoria do Rogério Pereira, fundador do Jornal Rascunho.

COMO BALA





A Cidade: uma fera confessa,
que ronca e rosna toda a sua fome.
O Homem, uma outra que consome
a vida sua a serviço da Pressa

(urgência de quem tem, forte e latente,
fome de pão e também de dinheiro)
por isso, na viagem, o passageiro
revisita o destino em sua mente

e, não estando lá, deveras sente
do lugar as cores, clima e cheiro.
A janela, o pensamento atravessa.

Voando, escapa ao olhar mais atento.
Você, que me julga a cuidar do vento,
não vê que pensando vou mais depressa?