Alguma Literatura

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

PROCRASTINAÇÃO







PRIORIDADE ESTRATÉGICA
Era fundamental levar o problema em banho-maria. Indesejável uma solução, criou-se uma comissão.

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AMPLIAÇÃO DO HORIZONTE TEMPORAL
Tá prontindanão, chefe

                                                                       *****

DIA SIM DIA NÃO
“É que hoje, doutor, é dia não.”

*****

Não é que o processo seja lento, ele vaga fora do tempo.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

O PINTOR E O EXECUTIVO



O PINTOR E O EXECUTIVO

Pingos de tinta no algodão branco.
Que lhe desculpasse, não tinha sido por mal. Estava tudo bem, morava logo ali, trocaria de roupa a tempo de seu compromisso. Na volta, podia deixar a camisa com ele, amanhã a devolveria lavada. Não precisava; lavaria em casa mesmo. Só por que era preto não significava que não sabia usar água e sabão. Não havia entendido. Era isso mesmo que ouvira. Se o outro fazia tanta questão, entregaria a camisa. Agora era ele que não queria mais; e não passasse perto de sua escada se não quisesse se sujar.

domingo, 20 de janeiro de 2013

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

ERA UMA VEZ (4 MICROCONTOS)






Uma moral à procura de um enredo.

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Um final e sua dose diária de antidepressivos.

***

Uma fábula que despertava as crianças.

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Um príncipe e seu jardim secreto. Pequeninas covas (dezenas delas).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

50 TONS DE CINZA




Meia-idade. Mais falante do que convinha. Ainda assim, queixava-se do excesso de conversa nos voos: “Outro dia, vim de Brasília e umas garotas conversaram por duas horas SEM-PA-RAR! De onde vem tanto assunto?” Leria o livro, mas estava enjoada. Vinho no dia anterior. 

sábado, 22 de dezembro de 2012

“POIS É, PENÉ.”




O porteiro me barrou. No elevador, seu Antônio, o vizinho do 602, perguntou se eu era novo. A fechadura não reconheceu minha chave. Meu garoto me negou um abraço. Penélope quis saber quem eu era. Já que fui ficando, acabaram por se acostumar. O porteiro, seu Antônio, meu filho e minha mulher. Porque a fechadura se mostrara especialmente teimosa, tivemos de trocá-la. Nesse dia, ouvi Penélope ao telefone (com Ana, sua irmã): “Mais fácil trocar o segredo do que o marido, né?”

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eloquência






-Como você sabe quando o quadro está pronto?
-Quando ele fala por si.
-Esse não está né?
-Está... Ele é do tipo caladão mesmo.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

ENCONTRO DE MANUEL BANDEIRA COM MACHADO DE ASSIS




“1896-1902
(...)
Viajando em um bonde na companhia de Machado de Assis, conversam os dois sobre Camões, e o jovem colegial tem o orgulho de recitar para o mestre uma oitava de Os Lusíadas de que este queria lembrar-se e cujas palavras exatas haviam se apagado em sua memória.”
(CRONOLOGIA DE MANUEL BANDEIRA [organizada pelo próprio autor] In Libertinagem e Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira).

Diário do jovem Manuel Bandeira:
“Que sorte a minha! Esse é o dia mais feliz da minha vida! A viagem tinha tudo para ser maçante, mas eis que encontro, viajando só, o grande Machado de Assis! Dá para acreditar? Não resisti e me aproximei. Disse o quanto o admirava. Como ele se mostrou um homem calado, aproveitei que no dia anterior havia decorado, por absoluta falta do que fazer, uma oitava de Os Lusíadas (‘Passada esta tão próspera vitória...’) para conduzir a conversa primeiro para Camões, depois Os Lusíadas e, em seguida, para o episódio de Inês de Castro. Enfatizei como admirava a elegância da primeira oitava a ela dedicada. Estrofe que, a um só tempo, introduz e sintetiza toda a tragédia. Foi o que bastou para que ele tentasse, sem sucesso, lembrar-se das sua exatas palavras. Pedi licença e, sem pestanejar, recitei a oitava na íntegra. Que orgulho! Foi um dia bom.”

Diário do velho Machado de Assis:
“Que azar o meu! A viagem tinha tudo para ser tranquila, mas eis que me aparece, do nada, um meninote tagarela, recitando Os Lusíadas de cor. Dá para acreditar? Que porre! Hoje eu pedi para morrer.”

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

HELENO: UM PERFIL



Em política, “democrata ortodoxo” dizia beócio. Ao telefone, lacônico. Tópico insofismável: alheio à metafísica. Pudera. Submetido à tirânica odisseia de um trabalho hercúleo, hipnótico.

sábado, 28 de julho de 2012

5 MICROCONTOS




QUINZE DE PAUS
“Minha canastra vai ser real”, blefou canastrão. Na caderneta, dois mil no buraco.

♠♣♥♦



TEXTO: “FIQUE À VONTADE”
Subtexto: Sou o anfitrião. Você; a visita. Melhor andar na linha.

♠♣♥♦


NO MEDIEVO, ANTES TROVADOR QUE CRUZADO
Buscasse a todo custo a originalidade, não me acabaria tolhida a criatividade?

♠♣♥♦

“POR FINEZA...”
Quando começava assim, vinha grosseria na certa.

♠♣♥♦

DESPIA-SE
Parou. Calcinha nos joelhos:
- Você vai deixar ela, né?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

E SE OS ROMANCES FOSSEM MICROCONTOS?




GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Ele era ela.


♠♣♥♦


CEM ANOS DE SOLIDÃO

Em um século, tudo pode acontecer.


♠♣♥♦


DOM CASMURRO

- És corno.
- Gostaria de uma segunda opinião.
- Nesse caso, sugiro que se consulte com a Dra. Caldwell.


♠♣♥♦


CRIME E CASTIGO

Matar uma velha pode lhe dar uma baita dor de cabeça.


♠♣♥♦


O VELHO E O MAR

Peixe teimoso. Pescador ainda mais. Os tubarões agradecem.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

+ 4 MICROCONTOS








SOLTEIRO SESSENTÃO

Chapéu panamá, sapato de veludo, suspensórios, lenço vermelho no bolso do casaco. Sobre a mesa, um copo grande de cerveja.


- VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO...
- Não, senhor, o senhor é que não...
- Eu preciso encontrar uma ligação perdida...
- Não tem como.
- Por favor, passe para o setor...
- Senhor, eu já disse que não existe, na telefônica, um setor de ligações perdidas.


UM FANFARRÃO

Na sua camiseta: “Tem um idiota olhando pra mim”. Desviei o olhar, não pensasse que eu lera. Quando já passara, não resisti. Virei-me para xingá-lo a tempo de ver nas suas costas: “E continua olhando”.


QUE TOMBO!

Nunca se desaprende a CAIR de bicicleta.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

5 MICROCONTOS





COBERTOR CURTO

Surpreendido por sua esposa, teve o tolo pudor de cobrir o falo ereto. Expostas, as coxas que há pouco mordiscara.

♠♣♥♦

DESCULPE, MAS NÃO TEMOS INTERESSE

Abriu, nervosamente, o envelope: Reconhecera de longe o timbre da editora.
- Chegou carta, foi?
- Não, meu amor, não chegou, respondeu rasgando o papel.

♠♣♥♦

QUANDO CHEGUEI, encontrei-o à porta do restaurante “esperando uma gata” - disse. Uma hora depois, quando saí, ainda estava lá. Fingiu que não me via.

♠♣♥♦

MENDIGOS

Catou uma bituca do chão, Tem fogo, Tenho, mas você não precisa fumar essa bituca não, toma esse cigarro aqui, Não, não, só quero o fogo, não gosto dessa marca.

♠♣♥♦

DEIXOU, SOBRE A ESCRIVANINHA, rol de tarefas, que sua viúva só encontraria dias depois. Ao riscar os itens cumpridos, ela pôde sentir uma ponta de satisfação.

sábado, 5 de maio de 2012

DINHEIRO, SEXO E VIOLÊNCIA


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Numa delegacia:
-Quando ela saiu de casa, disse que ia trabalhar.
-Onde ela trabalha?
-Ela... Minha filha fazia...
-Pode falar.
-Ela faz programa, né?
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quinta-feira, 3 de maio de 2012

BALADA DO HOMEM MORTO




-Levanta, velho! Levanta desse caixão!
Era o filho-problema. Nunca se dera bem com o finado.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Alto Nível




- Algo mais, senhor?
Mal entrou, reconheceu os olhos azuis da vendedora.
-Não. Só isso.
Despediram-se timidamente. A agência, pensou ao deixar a loja, cumprira o prometido: Era, de fato, uma linda universitária.

domingo, 22 de abril de 2012

Sambou, respeitosamente, à porta da repartição.





SAMBOU, respeitosamente, à porta da repartição. Abaixou as calças, aliviou os intestinos. Voltou a dançar. Merda no bico do sapato. Três homens fortes para contê-lo.



Imagem: Erik Rose
Fonte: http://www.optimumwound.com/12-questions-with-artist-erik-rose.htm

sábado, 21 de janeiro de 2012

Fique à vontade




Ali na esquina. Espaço. Talvez um metro quadrado, limites incertos, paredes translúcidas. Puro doméstico recato. Odores – suor, mijo, merda – domésticos. Gestos, os mais íntimos, conquistaram-no, palmo a palmo.
Ela tateia seu rosto. Os indicadores limpam sua pele. Afastam cabelo, barba. Localizado o cravo, usa os polegares. Olhos ausentes fitam ponto fixo. Sutil expressão sinaliza dor. Atenta, ela colhe as nuances. Para. Vê. Continua.
Ali. Microcosmo. O ambiente pede um “com licença”. “Fique à vontade”, diria ela. Ou ele. Ou ambos, em coro.