Alguma Literatura

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

LABIRINTO NA RODOVIÁRIA



Seria possível, num relance, descobrir as armas de sedução de uma desconhecida?
Observemos, por exemplo, essa mãe solteira a esperar seu ônibus. Ela conversa com a irmã enquanto fiscaliza o rebento. Fumante, entre uma e outra frase volta a face ao firmamento e bafora.
A tia provoca o garoto, que se agarra nas pernas da mãe. Essa usa as coxas para encorajá-lo a falar. Suas coxas dirigem os movimentos de sua cria melhor do que fariam suas mãos? Elas poderiam governar o mundo, tamanha sua confiança. Com elas é que ela pretende controlar os homens?
Temo não podermos tirar conclusões de um gesto tão efêmero.
Também seria inútil tentar interpretar sua forma de conter a criança, quando essa se impacientou com a demora da tia: “A dinda já vem! Calma, ela vem já já!” Constrangida, sorria para estranhos como a lhes pedir aprovação ou ajuda. Ou a propor-lhes uma frágil aliança fundada na estranha cumplicidade que certos adultos nutrem entre si, quando se trata de disciplinar os pequenos. Os ecos desse comportamento chegariam à alcova? Se sim, quais seriam eles? O mudo pedido de ajuda a completos estranhos denunciaria uma amante egoísta, focada apenas no seu próprio prazer? Ou seria a necessidade de aprovação indício de uma personalidade fraca, propensa mais a ceder do que a exigir?

Mais um beco sem saída. Melhor cair fora.  

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

ENCONTRO ENTRE OBAMA E DILMA


- Olha Obama, estou muito chateada! Todo mundo diz que você anda me espionando! Eu trouxe até um dossiê que meu assessor preparou – procura o documento na bolsa – deixa eu ver onde coloquei...
- No bolso externo.
- Ah é! Tá aqui. Peraí!! Como você...
- Deduzi, ora essa.
- Tá certo... Então olha só: existem dez perguntas aqui que eu gostaria de lhe fazer. Cadê, cadê... Bem aqui! Não. Deixa eu procurar.
- Página 14, item 3.2 “Questões Relevantes”.
- Não acredito! Você ainda tá me espionando!
- Desculpe, Dilma, mas não dá para resistir. À propósito, as respostas são: 1. “Terrorismo”, 2. “Terrorismo”, 3. “Não”, 4. “Não posso dizer”, 5. “Nunca”, 6. “Terrorismo” (de novo), 7. “Não sei” (juro), 8. “É mentira”, 9. “Sim” e 10. “20 centímetros”.
- “20 centímetros”??!
- Não era isso? Ih! Desculpe-me... Entendi mal. É que esse trecho ficou ambíguo ó – e grifa uma linha.
- Bem que eu disse ao meu assessor! 

domingo, 19 de maio de 2013

GRILADO




GRILADO

Achincalhado nas passeatas, político se refugiara na roça. Espairecer. De madrugada, acordou assustado: “Até aqui?” A sinfonia dos insetos, um apitaço para sua consciência. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

50 TONS DE CINZA




Meia-idade. Mais falante do que convinha. Ainda assim, queixava-se do excesso de conversa nos voos: “Outro dia, vim de Brasília e umas garotas conversaram por duas horas SEM-PA-RAR! De onde vem tanto assunto?” Leria o livro, mas estava enjoada. Vinho no dia anterior. 

sábado, 28 de abril de 2012