Alguma Literatura

Alguma Literatura

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eloquência






-Como você sabe quando o quadro está pronto?
-Quando ele fala por si.
-Esse não está né?
-Está... Ele é do tipo caladão mesmo.

domingo, 9 de setembro de 2012

Sugestão de leitura para a terça



Sugiro a leitura da seguinte crônica de autoria do Rogério Pereira, fundador do Jornal Rascunho.

COMO BALA





A Cidade: uma fera confessa,
que ronca e rosna toda a sua fome.
O Homem, uma outra que consome
a vida sua a serviço da Pressa

(urgência de quem tem, forte e latente,
fome de pão e também de dinheiro)
por isso, na viagem, o passageiro
revisita o destino em sua mente

e, não estando lá, deveras sente
do lugar as cores, clima e cheiro.
A janela, o pensamento atravessa.

Voando, escapa ao olhar mais atento.
Você, que me julga a cuidar do vento,
não vê que pensando vou mais depressa?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

ENCONTRO DE MANUEL BANDEIRA COM MACHADO DE ASSIS




“1896-1902
(...)
Viajando em um bonde na companhia de Machado de Assis, conversam os dois sobre Camões, e o jovem colegial tem o orgulho de recitar para o mestre uma oitava de Os Lusíadas de que este queria lembrar-se e cujas palavras exatas haviam se apagado em sua memória.”
(CRONOLOGIA DE MANUEL BANDEIRA [organizada pelo próprio autor] In Libertinagem e Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira).

Diário do jovem Manuel Bandeira:
“Que sorte a minha! Esse é o dia mais feliz da minha vida! A viagem tinha tudo para ser maçante, mas eis que encontro, viajando só, o grande Machado de Assis! Dá para acreditar? Não resisti e me aproximei. Disse o quanto o admirava. Como ele se mostrou um homem calado, aproveitei que no dia anterior havia decorado, por absoluta falta do que fazer, uma oitava de Os Lusíadas (‘Passada esta tão próspera vitória...’) para conduzir a conversa primeiro para Camões, depois Os Lusíadas e, em seguida, para o episódio de Inês de Castro. Enfatizei como admirava a elegância da primeira oitava a ela dedicada. Estrofe que, a um só tempo, introduz e sintetiza toda a tragédia. Foi o que bastou para que ele tentasse, sem sucesso, lembrar-se das sua exatas palavras. Pedi licença e, sem pestanejar, recitei a oitava na íntegra. Que orgulho! Foi um dia bom.”

Diário do velho Machado de Assis:
“Que azar o meu! A viagem tinha tudo para ser tranquila, mas eis que me aparece, do nada, um meninote tagarela, recitando Os Lusíadas de cor. Dá para acreditar? Que porre! Hoje eu pedi para morrer.”

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

HELENO: UM PERFIL



Em política, “democrata ortodoxo” dizia beócio. Ao telefone, lacônico. Tópico insofismável: alheio à metafísica. Pudera. Submetido à tirânica odisseia de um trabalho hercúleo, hipnótico.

sábado, 28 de julho de 2012

5 MICROCONTOS




QUINZE DE PAUS
“Minha canastra vai ser real”, blefou canastrão. Na caderneta, dois mil no buraco.

♠♣♥♦



TEXTO: “FIQUE À VONTADE”
Subtexto: Sou o anfitrião. Você; a visita. Melhor andar na linha.

♠♣♥♦


NO MEDIEVO, ANTES TROVADOR QUE CRUZADO
Buscasse a todo custo a originalidade, não me acabaria tolhida a criatividade?

♠♣♥♦

“POR FINEZA...”
Quando começava assim, vinha grosseria na certa.

♠♣♥♦

DESPIA-SE
Parou. Calcinha nos joelhos:
- Você vai deixar ela, né?

sexta-feira, 6 de julho de 2012

VER SÓ COM A BOCA



 



1
Não sou cego, mas não enxergo bem
por isso me socorro dos molares,
incisivos, caninos, pré-molares
e de outros dentes, quando convém.

Outros como os dedos, se há ensejo.
Peçonhentos, os meus, como serpentes.
Mas se uso de enxergar com os dentes
(caninos enterrados no que vejo

Com mordidas que podem virar beijo
Ou trincadas ainda mais potentes)
Sei que ao ferir sou ferido também

O mundo – faca -  é liso e agudo
E a cada mistério que desnudo
Ele contra-ataca e cobre outros cem.


10
Só vê com os dentes quem da infância
Guardou pedaço no bolso consigo
Como aquele que deixa o melhor trigo
Para a parte final da comilança.

E não me faça essa cara assim
Como quem diz: “não contrario louco”.
Sei que o mundo não é moeda d´ouro...
Digo, o mundo é moeda sim!

E maçã, manga, banana e aipim.
Como o sangue que urina o matadouro.
É tão real quanto vômito e ânsia

E exato como o trilho solar
Necessário prensá-lo com o molar
A testar-lhe a essência e substância.

11
BOCA BOCA BOCA BOCA BOCA BOCA BOCA
BOCA BOCA BOCA BOCA BOCA BOCA BOCA
MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA
MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA

DENTES DENTES DENTES DENTES DENTES
DENTES DENTES DENTES DENTES DENTES
VERSOS VERSOS VERSOS VERSOS VERSOS
VERSOS VERSOS VERSOS VERSOS VERSOS

MUNDO MUNDO MUNDO MUNDO MUNDO
MUNDO MUNDO MUNDO MUNDO MUNDO
MUNDO MUNDO MUNDO MUNDO MUNDO

MOLARES MOLARES MOLARES MOLARES
MOLARES MOLARES MOLARES MOLARES
MOLARES MOLARES MOLARES MOLARES

100
Se ver com a boca muito lhe atrapalha
Se de outra forma o mundo lhe invad´alma
Peço-lhe apenas atenção e calma
Poucos versos me restam na cangalha

E, com esses versos poucos, invisto:
Sem ouro, prata, anel ou adorno
Sem possuir nem este vinho morno
Ou o intervalo em que existo

Ou o lápis com que escrevo isto
Sinto-me dono daquilo que mordo.
Sou senhor de coisas que o vento espalha

Se essas não estiverem no laço
Exceção seja feita, como eu faço
À boca que é minha e não me falha.