Alguma Literatura

Alguma Literatura

sábado, 21 de janeiro de 2012

Fique à vontade




Ali na esquina. Espaço. Talvez um metro quadrado, limites incertos, paredes translúcidas. Puro doméstico recato. Odores – suor, mijo, merda – domésticos. Gestos, os mais íntimos, conquistaram-no, palmo a palmo.
Ela tateia seu rosto. Os indicadores limpam sua pele. Afastam cabelo, barba. Localizado o cravo, usa os polegares. Olhos ausentes fitam ponto fixo. Sutil expressão sinaliza dor. Atenta, ela colhe as nuances. Para. Vê. Continua.
Ali. Microcosmo. O ambiente pede um “com licença”. “Fique à vontade”, diria ela. Ou ele. Ou ambos, em coro. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Migalhas



Quando me ignoras
Quando preferes a sala vazia
À minha companhia
Abres, silencioso, cova
De esfarelada indiferença.

Ali, o amor,
Se ainda o tenho,
Vai se deitar.

Toda noite, com os olhos fechados, ele espera
Que lhe cubra
a última pá.

Mas – tão inábil –
Não sabes sequer
Desenganar
E cobre-me
Com tua ternura pouca, ou nenhuma.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Comércio




Próximo!
E mais um bombom, por favor.
Dá R$ 5,25. Teria 25 centavos?
Não.
Um, dois, três, quatro e setenta e cinco.
Obrigado.
De nada. Próximo!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A minha visão...






A MINHA visão                                                                             1. O mundo sensível
é uma navalha
a audição, o tato,
paladar e olfato?
São n navalhas.

Percebo o mundo
ao seccioná-lo.
Minúsculas fatias.
Pedaços diáfanos
de um todo opaco.

AO CORTAR a fruta                                                                    2. Tarefa doméstica
entendo-lhe a fibra
noto-lhe a consistência
pelo punho que vibra
e o modo desse vibrar
enquanto desliza.

Ou, se descarrila,
noto a carne minha
e essa prova a faca
redundantemente.

É QUANDO uma lâmina                                                                         3. Síntese
ensimesmada.
É onde uma faca
em si enrolada.
n de navalha.

É quem o fio
escondido em si.
É porque espada
desembainhada.
n de navalha.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Outra Penélope



“...and the black arms of tall ships that stand
against the moon, their tale of distant nations.”
(James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man)

λιμάνι

E despedida despe-a-ida
vela lassa – alva asa calva
lamúrias no cais ou
calar tonitruante ou
só o conoro marulho
discurso mudo.

ωκεανός

Amarado o velame vela-me pando
é o retransir o Reino
do esposo infiel
e pai de Polifemo.

ομίχλη

Onde, o relume? Sol de leite
- salvador de Enéias .
Náu nossa erra desorfada
Senda sáfara sinuosa amarga
Maremareada jornada

Ir-vagar-perder-achar-vir

αγάπη
Rubi os olhos esmeraldinos
Esperam.
Ela.
Tecem suas mãos mentiras cíclicas?
Acariciam amor visível, crível?
Aguardam figura elíptica?
Mar, medianeiro mar.


Homenagem a João Foti

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Tauromaquia






O paseo já tem início.
Passos firmes de herói
Olhadela ao precipício
Por mais que fugaz, corrói.
- E tu, fera, tens já medo?
- Não. O porvir desconheço.

O homem que empunha a lança
Destreza veloz: montada.
O animal fere e alcança
Prepara a faena aguardada.
- Touro, és forte, mas lento.
- Luto, mas golpeio o vento.

Altivo, o Toureiro a capa
Rubras asas. Inflam. Somem.
Hora esconde, hora destaca.
O Feroz só roça o homem.
- Touro, és acaso cego?
- Não. Miro, mas não acerto.

Bandarilheiro boçal
Empáfia. Som de fanfarras.
Adorna o belo animal
Ganhando vivas e palmas.
- Por que não gritas, oh Touro?
- Eu grito, mas não me ouço.

O Assassino, com a muleta,
Música ainda mais alta.
Parece varrer poeira
Que lhe caiu na ribalta.
- Quase feriste o inimigo:
- Cabecear não consigo!

O Animal ergue a espada
A tensão incha o instante.
E executa a estocada.
Touro ao chão, resfolegante.
- Touro, morres com hombridade.
- Sanguinária humanidade...