Alguma Literatura
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
sábado, 21 de janeiro de 2012
Fique à vontade
Ali na esquina. Espaço. Talvez um metro quadrado, limites incertos,
paredes translúcidas. Puro doméstico recato. Odores – suor, mijo, merda –
domésticos. Gestos, os mais íntimos, conquistaram-no, palmo a palmo.
Ela tateia seu rosto. Os
indicadores limpam sua pele. Afastam cabelo, barba. Localizado o cravo, usa os
polegares. Olhos ausentes fitam ponto fixo. Sutil expressão sinaliza dor.
Atenta, ela colhe as nuances. Para. Vê. Continua.
Ali. Microcosmo. O ambiente pede um “com licença”. “Fique à vontade”,
diria ela. Ou ele. Ou ambos, em coro.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Migalhas
Quando me ignoras
Quando preferes a sala vazia
À minha companhia
Abres, silencioso, cova
De esfarelada indiferença.
Ali, o amor,
Se ainda o tenho,
Vai se deitar.
Toda noite, com os olhos
fechados, ele espera
Que lhe cubra
a última pá.
Mas – tão inábil –
Não sabes sequer
Desenganar
E cobre-me
Com tua ternura pouca, ou
nenhuma.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Comércio
Próximo!
E mais um bombom, por favor.
Dá R$ 5,25. Teria 25 centavos?
Não.
Um, dois, três, quatro e setenta e
cinco.
Obrigado.
De nada. Próximo!
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
A minha visão...
A MINHA visão 1. O mundo sensível
é uma navalha
a audição, o tato,
paladar e olfato?
São n navalhas.
Percebo o mundo
ao seccioná-lo.
Minúsculas fatias.
Pedaços diáfanos
de um todo opaco.
AO CORTAR a fruta 2. Tarefa doméstica
entendo-lhe a fibra
noto-lhe a consistência
pelo punho que vibra
e o modo desse vibrar
enquanto desliza.
Ou, se descarrila,
noto a carne minha
e essa prova a faca
redundantemente.
É QUANDO uma lâmina 3. Síntese
ensimesmada.
É onde uma faca
em si enrolada.
n
de navalha.
É quem o fio
escondido em si.
É porque espada
desembainhada.
n
de navalha.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Outra Penélope
“...and
the black arms of tall ships that stand
against
the moon, their tale of distant nations.”
(James
Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man)
λιμάνι
E despedida
despe-a-ida
vela lassa –
alva asa calva
lamúrias no cais
ou
calar
tonitruante ou
só o conoro
marulho
discurso mudo.
ωκεανός
Amarado o velame
vela-me pando
é o retransir o
Reino
do esposo infiel
e pai de
Polifemo.
ομίχλη
Onde, o relume?
Sol de leite
- salvador de
Enéias .
Náu nossa erra
desorfada
Senda sáfara
sinuosa amarga
Maremareada jornada
Ir-vagar-perder-achar-vir
αγάπη
Rubi os olhos
esmeraldinos
Esperam.
Ela.
Tecem suas mãos
mentiras cíclicas?
Acariciam amor
visível, crível?
Aguardam figura
elíptica?
Mar, medianeiro
mar.
Homenagem a João Foti
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Tauromaquia
O paseo já tem início.
Passos
firmes de herói
Olhadela ao precipício
Por mais que fugaz, corrói.
- E tu, fera,
tens já medo?
- Não. O porvir
desconheço.
O homem que empunha a lança
Destreza
veloz: montada.
O animal fere e alcança
Prepara a faena aguardada.
- Touro, és
forte, mas lento.
- Luto, mas
golpeio o vento.
Altivo, o Toureiro a capa
Rubras
asas. Inflam. Somem.
Hora esconde, hora destaca.
O Feroz só roça o homem.
- Touro, és acaso
cego?
- Não. Miro, mas
não acerto.
Bandarilheiro boçal
Empáfia.
Som de fanfarras.
Adorna o belo animal
Ganhando vivas e palmas.
- Por que não
gritas, oh Touro?
- Eu grito, mas
não me ouço.
O Assassino, com a muleta,
Música
ainda mais alta.
Parece varrer poeira
Que lhe caiu na ribalta.
- Quase feriste o
inimigo:
- Cabecear não
consigo!
O Animal ergue a espada
A
tensão incha o instante.
E executa a estocada.
Touro ao chão, resfolegante.
- Touro, morres
com hombridade.
- Sanguinária
humanidade...
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