Alguma Literatura

Alguma Literatura

terça-feira, 1 de abril de 2014

PARA ESCREVER NUMA CAMISETA



1
Provavelmente estou mentindo.
♥♠♣♦

2
Desculpe, não falo português.
♥♠♣♦

3
Minha outra camisa é de marca.
♥♠♣♦

4
Posso atrapalhar?
♥♠♣♦
5
Minha outra camisa está limpa.
♥♠♣♦

6
Deixei meu smoking no iate.
♥♠♣♦

7
Quer um abraço? Eu não.
♥♠♣♦

8
Não podem provar nada contra mim.
♥♠♣♦

9
Não me siga. Também estou perdido.
♥♠♣♦

10
Não fui feito na China.
♥♠♣♦







segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

LABIRINTO NA RODOVIÁRIA



Seria possível, num relance, descobrir as armas de sedução de uma desconhecida?
Observemos, por exemplo, essa mãe solteira a esperar seu ônibus. Ela conversa com a irmã enquanto fiscaliza o rebento. Fumante, entre uma e outra frase volta a face ao firmamento e bafora.
A tia provoca o garoto, que se agarra nas pernas da mãe. Essa usa as coxas para encorajá-lo a falar. Suas coxas dirigem os movimentos de sua cria melhor do que fariam suas mãos? Elas poderiam governar o mundo, tamanha sua confiança. Com elas é que ela pretende controlar os homens?
Temo não podermos tirar conclusões de um gesto tão efêmero.
Também seria inútil tentar interpretar sua forma de conter a criança, quando essa se impacientou com a demora da tia: “A dinda já vem! Calma, ela vem já já!” Constrangida, sorria para estranhos como a lhes pedir aprovação ou ajuda. Ou a propor-lhes uma frágil aliança fundada na estranha cumplicidade que certos adultos nutrem entre si, quando se trata de disciplinar os pequenos. Os ecos desse comportamento chegariam à alcova? Se sim, quais seriam eles? O mudo pedido de ajuda a completos estranhos denunciaria uma amante egoísta, focada apenas no seu próprio prazer? Ou seria a necessidade de aprovação indício de uma personalidade fraca, propensa mais a ceder do que a exigir?

Mais um beco sem saída. Melhor cair fora.  

domingo, 15 de dezembro de 2013

“CREPÚSCULO CIVIL” DE LÊDO IVO: MONOTONIA E BELEZA








1. Noite, Deus e Morte

Em um saldo na Feira do Livro de Pelotas fiz minha colheita: Crepúsculo Civil do poeta Lêdo Ivo.
Cinco reais a menos depois, eis-me aqui.
Desde o título, promete-se falar sobre a Noite. Outros temas enfrentados insistentemente são Deus e a Morte.
Esse trio está presente em vários dos seus 101 poemas.
A síntese das intenções do poeta é NOTURNO, no qual se pinta um quadro do anoitecer no centro do Rio diante de um Deus que, indiferente, fecha-se em si:

“Na igreja fechada
Deus está sozinho
Como um vagabundo
Num banco de praça”

Em outros poemas, exsurge o mesmo Deus mudo:

“E após as tempestades assassinas
Vem a bonança, a cerca que separa
De todos nós um Deus emudecido”
(A INUNDAÇÃO)

“Sou o centro de tudo
E guardo um Deus mudo
No meu coração”
(O REFÉM)

Há, também, um Deus que se oculta:

“Na água putrefata
Onde Deus se oculta
Eu também me escondo”
(O CARANGUEJO)

Fala, por esses versos, uma voz que, ainda que vacilantemente, busca o divino e, por isso mesmo, frustra-se diante do mutismo do Criador.
O Eu-poético preferiria que Deus não só falasse, mas fosse a própria linguagem:

“Perguntei a Deus
sua identidade
E ele respondeu:
‘Eu sou a Linguagem’”
(A INTERPELAÇÃO)

A mesma postura se aplica à natureza. É o que se verifica no seguinte verso no qual, na figura de um singelo caracol, também ela é interpelada:

“Falai! Confiai-nos agora o grande segredo”
(OS CARACÓIS)

O silêncio da criatura seria uma consequência do silêncio do próprio Criador.
O embate entre o Deus-Palavra (que se deseja) e o Deus-Ato (que se mostra) cria um efeito cômico em O RATO DA SACRISTIA. Também aqui, Deus é silente: até sua censura ao roedor é muda. Mas quando esse ganha voz (e até certa eloquência) cria-se no leitor a expectativa de, enfim, ouvir-se algo da boca de Deus, que, no entanto, prefere agir a falar.
Usou-se do divino, por fim, na composição do mais belo poema de amor do volume:

O FUTURO DOS CORPOS

Quando não tivermos
mais nenhum desejo
ficaremos juntos
onde estiver Deus

no desfiladeiro
que saqueia as almas
e devolve aos corpos
a nudez final.

Quando apenas formos
o sopro do vento
e a pureza da água

a nossa união
resplandecerá
no céu libertado.”

Também a morte se faz presente em NOTURNO:

“Noite dos suicidas
e dos derrotados,
noite de quem perde
no jogo da vida”

Em outras poesias, tratou-se da morte sob uma perspectiva mais otimista. Essa não seria símbolo de derrota, mas uma ocasião para o recebimento de uma nova dádiva, uma nova vida. Por essa trilha seguem os versos:

“Livres de nós
ao céu subimos
e ao breve alento

de nossas almas
a aurora raia
no firmamento”
(A ASCENSÃO)

E ainda:

“Eu estava além da morte
onde a própria morte é vida”
(UMA CHUVA DE ALEGRIA)

A infinita sucessão de dias e noites chegou a ser utilizada como uma alegoria para o perpétuo ciclo de vida-morte-vida. Exploram-na OS DIAS DIVIDIDOS:

“Após o meio-dia, vem a noite
e, brandindo uma foice, vem a morte”

E RECOMEÇO:

“Além da noite escura encontramos o dia,
reinício da vida leve como palha
que estremece perene entre as estrelas”

A pena de Lêdo Ivo reservou até mesmo indolência à morte:

“Que a morte não me insulte
neste dia de sol”
(AMBIÇÃO DESCABIDA)

E sarcasmo à pompa dos ritos funerários:

“Os mortos também acabam, após tantas lágrimas
e missas cantadas e anúncios nos jornais”
(O SILÊNCIO INCOMPLETO)

“Após tanta reverência
e tantos salamaleques
lá se foi Sua Excelência
desta para melhor”
(CANDELÁRIA).

NOTURNO coloca a morte em pleno passeio público. Essa aproximação ente a Morte e a Cidade seria abordada também em outros poemas. Resultou daí, por sinal, a mais inusitada metáfora da obra, aquela que permitiu ao poeta ver nos caminhões de lixo carros funerários, a levar nossos dejetos a título de enterro antecipado:

ANTECIPAÇÃO

Canto o lixo do Rio:
as latas amassadas,
as garrafas vazias
e os restos de comida.

Engordam a manhã,
em negros sacos plásticos,
os vômitos, os sonhos
e os brinquedos quebrados.

O caminhão de lixo
parado à nossa porta
tem um ar funerário.

Rumo a que cemitério
vamos, antecipados,
nesse enterro diário?”
                                       
Mas esse trio não exaure os temas abordados no livro.
Há ainda amor (O AMANTE APLICADO), humor (RESPOSTA NA PONTA DA LÍNGUA), terror (O DEMÔNIO e A BRUXA) e belas reflexões sobre a fugacidade da existência (O TRAPICHE, ENSEADA DE BOTAFOGO, PALHA DOURADA e A PASSAGEM).

2. Monotonia vocabular

Como aspecto negativo, é de se registrar a alta frequência de certas palavras: “noite”, “sol” e “dia” saltam insistentemente das páginas. Também há, em menor escala, abuso de “Deus”, “céu” e “estrela”.
Até mesmo os preciosismos se repetem. É o caso de “arrebol” (em CLARIDADE e ENSEADA DE BOTAFOGO), “miasma” (em O ANIMAL ENXOTADO, A PALAVRA FINAL, O CARANGUEJO e O TREMOR DA FOLHAGEM) e “coivara” (O TRAPICHE e INSÔNIA).
Se esse vocabulário ajuda a compor uma obra coerente do ponto de vista estético, também cansa o leitor.


3. Repetição e cansaço

O estilo repetitivo, por sinal, também se evidencia na composição dos versos. Alguns possuem irmãos gêmeos:

“O dia passa como um gavião”
(PALHA DOURADA)

“E os dias passam
Como baratas
Na escuridão”
(NO CAIS PHAROUX)

O lugar-comum do orvalho e seu caráter efêmero inspirou alguns desses versos-gêmeos:

“O orvalho, que é eterno, se evapora
chegada a sua hora”
(O TRAPICHE)

“E todo amor é o instante oblíquo
em que o orvalho se evapora”
(O DARDO)

Outro clichê, o uso de “concha” para designar o sexo feminino, repete-se em O AMANTE APLICADO:

“Por curiosidade
levantei tua saia
para ver-te inteira.
E em lugar da concha
fugida do mar
estava uma estrela”

E REFÚGIO:

“Nele me escondo
como todos os homens
refugiado em sua concha”

A monotonia e o cansaço deitam raízes por todo o livro. Veja, a propósito, os seguintes versos:

“O mundo se repete e se renova”
(SONETO DE INVERNO)

“Estou cansado de voltar
A nascer quando a aurora nasce”
(O GUERREIRO FATIGADO)

“O tempo dói
Em nossas vidas”
(NO CAIS PHAROUX)

Também as formas se repetem.
São trinta sonetos, dos quais vinte e seis possuem métrica alternativa.
O arranjo de HOSPITAL PINEL repete-se em AMBIÇÃO DESCABIDA: Seis dísticos e um monóstico.
Também NA PRAÇA MAUÁ, ESTAÇÃO CINELÂNDIA e O LAGARTO possuem a mesma arquitetura: Quatro tercetos.
A monotonia formal se mostra coerente com a insistência temática, a repetição de palavras e o cansaço do discurso.
Apesar da repetição (ou, quem sabe, graças a ela) Lêdo Ivo lapidou poemas de rara beleza, como os já citados NOTURNO, O FUTURO DOS CORPOS e ANTECIPAÇÃO.
Cabe, ainda, o registro de algo que não se encontra no livro: superabundância de referências literárias.
Algo que me incomoda nos poetas é sua tendência a dedicar versos e mais versos à própria poesia. E falam sobre o poeta e seu ofício e sobre a arte e sobre a palavra e etc.
O escritor alagoano deixou, é certo, sua quota de metapoesia: AS DUAS IRMÃS, O GUARDIÃO e PASSEIO NO JARDIM.
Na maioria das vezes, no entanto, não usou de rodeios e foi direto ao ponto: o drama humano.
Em um saldo na Feira do Livro de Pelotas não desenterrei um tesouro, mas descobri que o belo também se pode forjar na monotonia.



sábado, 16 de novembro de 2013

MICROCONTOS: 3 INÉDITOS + 2 PREMIADOS





INÉDITOS

LICENÇA-PATERNIDADE
Você disse que se ausentaria em razão do nascimento do seu filho; Foi o que eu disse, Senhor; Mas não era verdade; Não era, Senhor; O que você fez foi lançar um livro; De poesias, Senhor; Como você explica isso; Bem... Pensei que todos sabiam se tratar de uma licença poética, Senhor.

NÃO LEVE A MAL
“Não é nada pessoal contra você.”
“Então você é idiota assim com todos?”

A LITERATURA MINIMALISTA INSTIGA PROFUNDOS QUESTIONAMENTOS
“É só isso mesmo?”

PREMIADOS

ELOQUÊNCIA
-Como você sabe quando o quadro está pronto?
-Quando ele fala por si.
-Esse não está né?
-Está... Ele é do tipo caladão mesmo.
(2° Concurso de Microcontos de Humor de Piracicaba - 2012)

ERA UMA VEZ
Uma capa e uma contracapa. Longa história de amor entre elas.

(Concurso Poemas no Ônibus e no Trem de Porto Alegre – 2013)

sábado, 5 de outubro de 2013

O GATO E O TECLADO



O GATO E O TECLADO

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nnnnnnnnhfewak´~

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

ENCONTRO ENTRE OBAMA E DILMA


- Olha Obama, estou muito chateada! Todo mundo diz que você anda me espionando! Eu trouxe até um dossiê que meu assessor preparou – procura o documento na bolsa – deixa eu ver onde coloquei...
- No bolso externo.
- Ah é! Tá aqui. Peraí!! Como você...
- Deduzi, ora essa.
- Tá certo... Então olha só: existem dez perguntas aqui que eu gostaria de lhe fazer. Cadê, cadê... Bem aqui! Não. Deixa eu procurar.
- Página 14, item 3.2 “Questões Relevantes”.
- Não acredito! Você ainda tá me espionando!
- Desculpe, Dilma, mas não dá para resistir. À propósito, as respostas são: 1. “Terrorismo”, 2. “Terrorismo”, 3. “Não”, 4. “Não posso dizer”, 5. “Nunca”, 6. “Terrorismo” (de novo), 7. “Não sei” (juro), 8. “É mentira”, 9. “Sim” e 10. “20 centímetros”.
- “20 centímetros”??!
- Não era isso? Ih! Desculpe-me... Entendi mal. É que esse trecho ficou ambíguo ó – e grifa uma linha.
- Bem que eu disse ao meu assessor!