Alguma Literatura

Alguma Literatura

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ciranda




Criançada em viva roda, cantoria de cantiga, canta versinho da moda, sem soltar a mão da amiga. Redondo fluxo que contorna o centro pleno de som, harmonia salpicada, aqui e acolá, por riso, ou grito de improviso, ou escorregão no piso, e ao normal tudo volta: “volta e meia vamos dar”. Vindo pela contravolta, do horário ao anti-horário, a brincadeira prossegue. E agora ainda mais viva, pois ali não há quem negue que o anel era de vidro e por isso se quebrou nem tampouco que o amor, que alguém tinha, era pouco e se acabou. O bom balanço da trança toda ornada com fita azul – leste, oeste, norte e sul – faz o testemunho da dança de circular feitio e inocência pueril. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

De viagem (o oco da lembrança)

E avante fui seguindo
No sobe e desce da estrada
Ora indo, ora vindo
Na mente a mulher amada

Botei mil léguas nas costas
Cidades mais outras tantas
Perdi a conta das santas
Que avistei em andor expostas.

Rio, riozin, riacho, arroio
Lago, laguna, lagoa
Água (da ruim e da boa)
Já lavou esse meu rosto.

Pinto-Silva, Bem-te-vi
Sabiá ou Curió
Urubu - que vê melhor -
Nenhum viu o que eu vi

Vi o ermo bem de perto
Vi o verde e o deserto
Gente que parece bicho
Vi buniteza e lixo.

Tudo é alembramento:
Estrada, rio, bicho, andança.
A vida é uma lembrança
Que quer o esquecimento.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lagoa Seca


Lagoa Seca: nome que remete
àquilo que foi, ao passado inerte.
Adjetivo que seca o substantivo
anulando-o em definitivo.

Sinônimo de uma não-lagoa.
Sapos, insetos e peixes à toa
nada disso existe no lugar.
É difícil, para mim, explicar

O assombro que, na primeira infância,
esse nome em mim já produzia
se “Lagoa Seca” a carta dizia

Lia eu ”A Lagoa Encantada”
Então decreto: lagoas não secam.
Se estou certo, ficam encantadas.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

CASAL NO FUNDO




Q U E R O...

... lembrança azul
com cheiro de manhã chuvosa
rendida pelo sol.
Mormaço levantado
do chão úmido.
Lembrança quente
(tarde passada solto
na praia sob o sol).
Duas vezes me perdi.
Chorei.
Ignorava: viver é estar perdido.

... maravilha!
Amplo horizonte marinho,
não o da foto, ou da lembrança, da canção,
mas o que vi (vejo)
ao experimentar, criança, o salobro sabor do infinito.

R E C L A M O ...

...contra todas as nações,
a propriedade daquela faixa
do Atlântico alcançada pelo meu olhar.
Generoso, franquearei a passagem
a quem interesse tiver.
Pacífica, desde que.
E feita por quem
amar o mar também.

... os cacos duma
Arbitrária memória.
Casal se abraça no fundo.
-Qué que eles fazendo, mãe?
-Pra lá não! 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Abordagem





Escreva o poema em papel seda. O tabaco no papel enrole. Acenda o brejeiro com o fogo que, faz mais de uma hora, prepara uma feijoada. Observe as letras no ar. As que se disfarçam de fumaça, ignore. Anote-as em um jornal de domingo. Evite o suplemento cultural, prefira o caderno de esportes. Recomponha palavras, versos e estrofes. Risque as rimas por acaso formadas. Descarte, em pedaços, o diário. Tome o cuidado de com o poema sonhar. De segunda a sábado, palavra por palavra, o poema vá reescrevendo ao despertar. Dessa vez, mantenha as rimas, mas apenas as pornofônicas. Em um domingo em que se coma feijoada, escreva o poema na seda. O procedimento repita até que ele, ou você, enfim retroceda.


sábado, 28 de janeiro de 2012

Palmo medido...



Palmo medido                                                                          I. Adiante, praça acossada.
com braço esticado
na altura dos olhos.

Valiosa
a linha misteriosa.
Céu e Terra em colóquio
cara a cara.

Qual o assunto?
Queixas dos homens?
Inveja do mar?

Voam                                                                                                    II.  Na praça, uns.
faces velozes
Voam.

Caóticas, as trilhas
sinuosas, as sinas.

Faces velozes
alagam horizonte possível.
O palmo; agora mais
largo.
Ala(r)gamento contido
em copo d’água.

Louro balanço                                                                               III. Uma. (Eu-mendigo).
passo decidido.

Quebra recompõe
quebra.

De onde vem essa fé na vida?
Essa convicção
de merecê-la,
de onde?

Se não lhe faz falta
tem um pouco pra mim,
por caridade?
Precisando tanto...