Alguma Literatura

Alguma Literatura

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mulher enlutada




1. Dor nova
A viuvez. Dor ritual. O luto. O sofrimento ostensivo. Condolências. Pêsames. Sentimentos e pesares. Cartões e telegramas. Flores e cartas. Obituário. Mudança de estado. Também de vestuário. Sai o vermelho entra o negro. Mudança de comportamento. Sai a tagarelice entra o silêncio. Não necessariamente sofrido, mas sempre refletido e inundado de lembranças multicoloridas. Missas. Corpo presente. Sétimo dia. Trigésimo dia. Missa. Um ano. Finados. Com muito estardalhaço a alma se vai. “Segura na mão de Deus e vai”. E vai bastante encomendada e recomendada. Em criança, ela imaginava como se processariam, no céu, as intenções de uma missa. Havia visto professor bater na porta de seu pai pedindo emprego com carta de recomendação a tiracolo. E ao rezar por defunto, via, em sua mente, a alva figura de uma alma levantando a pesada aldraba do céu com uma mão e, com a outra, segurando várias cartinhas: uma para cada reza de criança. Outras maiores e mais pomposas: uma para cada missa. Com espanto, percebeu que a ideia que, depois de viúva, fazia de tão insondáveis mistérios em nada se distanciara daquela que formara quando mal saída dos cueiros. “Até que morte os separe”. A viuvez.


2. Dor antiga
A lembrança doloridazinha do ser amado já há décadas sepultado. A raspa última do tacho: aquelas lágrimas que, passada a convulsão maior da dor, esquecemo-nos de chorar. Essas retardatárias lágrimas – conta-gotas, pingos pingados de goteira – a gente nunca deixa de verter. Prantos silenciosos. Essas infinitesimais derradeiras lágrimas... Só existem – parece – para conservar ardente a labareda do pesar, estranha chama. É ela que vem apanhar a matriarca que, ali sentada, vê-se obrigada a culpar a poeira. Habita igual modo o coração dos órfãos – agridoce relembramento: é cicatriz, a bem dizer. Isso porque só a tem aquele que se curou de uma chaga, mas tê-la não é o mesmo que gozar de pele imaculada.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Bactericida




Um bicho vivo
Na louca-louça suja
O pão mordido
Que ele suga
Já foi mantega
Já foi delícia
Em boca negra
Nome Patrícia.

O bicho podre
Que sobre a pia
De gente pobre
Largo se delicia
É aristocrático
É bicho gordo
Um enigmático
Bicho asqueroso.

Um bicho imundo
Morre sua vida
O moribundo
Essa ferida (vida)
Herdou dum antigo
Seu precursor (análogo de pai)
Que fora vivo
Mas acabou.

Um bicho vivo. Vivo?
Será mais não.
Surpreendido
Por água e sabão
O dia último
De vida encontra
Foi seu verdugo
Reles esponja.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Dorme, anjo, dorme


              (Imagem: http://gn9ne.blogspot.com/2011/02/snake-face.html)



CASCAVEL na cama
Sob o pano branco
Seu silvo reclama
Num chiado pranto
A volta de um tempo

A COBRA no leito
Onde requebra oculta
No lado em que me deito
E indaga e consulta
Sobre o seu tempo.

COBRA sob a fronha
Com o mundo espantada
Esconde a peçonha
Por envergonhada
De estar nesse tempo.

SERPENTE encoberta
Foge da malícia
Que existe na terra
E me pede notícia
De um outro tempo.

Quando pôde ontem
Sussurrar manobras
Na orelha do homem
Que ouvia as cobras
Como aluno ao mestre.

Dorme, anjo, dorme
Guarda em teu sono
A inocência que
Se no mundo não mais há
Não é por culpa sua.

sábado, 7 de janeiro de 2012

É uma escolha do cliente





1. Queda guiada
Parábola rasga o azul

Voar em poltronas de chumbo
Aeromoças de um, mais pesado,
Chumbo. Asas, foices contra
Algodão.
Sou criança. Não sei como,
Mas espero chegar.
O capitão traz cidades
No bolso.

(A porta se abre.
-Papai!
Agarro suas pernas.
-Tem balinha?)

Senhores passageiros
Sejam bem vindos a ...
Tantos destinos
(Alguns doces, outros azedinhos,
Outros difíceis de abrir, outros
de comer no palito, outros não).

2. Cair em si
E se perder.
Vagar em si
E se frustrar.

Aquele eu que quis
O destino
Não o alcançará.
Será diverso o eu. O destino,
Diverso.
O que chega faz contas.
Crê que, no final,
Viajar não foi boa ideia.
Duvida da integridade de Natal.
Terá ela resistido, indaga.
Terão, enfim, invadido seus muros
(de dunas, rio e mar)?
Terão, os invasores, apagado
As páginas de minha particular
História?
O destino não o conhece.
Cão, outrora seu, a rosnar.

3. Serviço de atendimento
Ao consumidor.

-Senhor, não podemos devolver Seu dinheiro.
-É um absurdo!
-Ehh... Desculpe a intromissão...
-Sim.
-... mas talvez a cidade de sua infância...
-Era para lá que eu queria ter ido.
-... hoje só exista na sua imaginação.
-Um absurdo! Vocês perdem um cliente.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Lâmina




À maneira de espelho
mostra-me seu lado
e minha face.

Para milagre
lambe a pedra
ressurreição.

Se represa
enterra-se em ventre
comportas se abrem.

Se garantia
esconde-se na cintura
pelo sim pelo não.

Como cão
morde os braços
de defesa ato.

Quando peixeira
em mãos de minha avó
limpa o peixe.

Quando faca
em mãos de minha mãe
despe o alho.

Quando canivete
em mão do pivete
descarna-me a carteira.